quarta-feira, agosto 12, 2009

A diferença entre ser um zero à esquerda e outra à direita

Existem pessoas e pessoas. Fato. E, nesta semana, Renata teve mais certeza disso. Percebeu que pertence ao grupo das pessoas que não fazem diferença, mesmo sendo peças bastante atuantes em uma engrenagem. Antes que uns e outros digam que sua auto-estima está baixa, explicamos: não, ela não está em crise. Sabe de seu valor, porém simplesmente percebeu que os responsáveis pelo local ao qual dedica parte de seu tempo, seu trabalho, não pensam assim. Estúpidos!

Voltando ao tema, descobriu que apesar de trabalhar feito um jumento (A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira // Quem é que carrega? Hi-ho), seu retorno é zero (Jumento não é/ Jumento não é/ O grande malandro da praça / Trabalha, trabalha de graça). Daí lhe veio à idéia de que é mesmo um zero, à esquerda do dois. Tal como no filme “Tropa de Elite”. Afinal de contas, apesar de ter o mesmo cargo e função que um colega, ganha muito menos que ele. E, mais ainda, percebeu que aqueles que a consideram assim estão loucos para gritar: “PEDE PRA SAIR ZERO DOIS!!”

Devemos dizer que ela está quase lá, mesmo antes que eles gritem. De fato o que prevalece no tal lugar é a Lei da Mais Valia. Isso é, vale mais quem puxa mais o saco (Não agrada a ninguém/ Nem nome não tem / É manso e não faz pirraça). E, sendo assim, está fadada ao fracasso e aos recursos minguados.

Anos de estudo e qualificação? Não são relevantes. Competência e produtividade? Idem. Então, seguindo a máxima “os incomodados que se retirem”, ela pensa fazer isso em breve, afinal, “o céu é seu limite!”

Mas quando a carcaça ameaça rachar / Que coices, que coices/ Que coices que dá.

Não dará coices, disse-me ela, apenas um tchauzinho. Algo como “estou indo embora/ Baby, baby, baby/ Mas estou indo embora/ Baby, baby, baby”. É aquilo, se é um zero à esquerda, não fará falta alguma.

quarta-feira, junho 10, 2009

Um passo em falso e...

É verdade, a maldição do Dia dos Namorados existe e afeta de forma arrasadora as mulheres. E falo isso porque sou uma vítima dessa praga. Por isso, alerto: fiquem atentas aos detalhes.

Àqueles que não acreditam, sugiro ir fazer compras no dia 12 de junho. Iniciem os trabalhos após o almoço. Irão constatar que todo mundo resolve fazer o mesmo. Parece que na última hora as pessoas começam a acreditar que se não fizerem nada, o grande infortúnio irá se abater sobre suas vidas. Algo pior que os sete anos de azar que ocorrem após a quebra de um espelho.

O medo da tal desgraça no universo feminino é tão grande que enfrentamos uma verdadeira Via Sacra que começa pelo salão de beleza, afinal, precisamos estar impecáveis. É aquilo, em dias normais a impressão que se tem é que nossos pares sequer notarão se as unhas estão mal feitas ou se os pelinhos das pernas se apresentam crescidos. Porém, nesse dia é fundamental que não haja vestígios de raízes escuras, cutículas ou pêlos em lugares indesejados. E lá se vão algumas horas em um local abarrotado de mulheres. Trocamos idéias sobre os presentes que vamos oferecer, porém, que ainda não compramos.

Aproveitamos para nos inteirar das notícias e lemos revistas de fofocas. Aquelas entre nós que não gostam de saber quem casou com quem e porque deram certo, optam pelos jornais. Pelo caderno especial do Dia dos Namorados. Lá são encontrados os melhores destinos para se ir a dois: Paris, Veneza, Londres... sim, como se fosse possível a uma cidadã comum fazer o passaporte, arrumar as malas, comprar as passagens e realizar todo o resto a ponto de sair do Brasil no dia 12 e chegar no mesmo dia a Europa. Abrindo um parêntese, fico me perguntando por que é que sempre fazem essas matérias sendo que praticamente ninguém vai poder comprar os pacotes e chegar aos destinos em tempo de comemorar a data. Não seria mais inteligente fazer isso com pelo menos uma semana de antecedência? Enfim...

Como dizia, por temor de a praga se abater em nossas vidas, perdemos todo esse tempo e mais horas e horas em filas para entrar em shoppings. Esperamos para sermos atendidas por comerciários cansados e estressados que muitas vezes nos informam que o produto desejado já acabou. Mas, movidas que somos pelo medo, não desistimos. Caminhamos e aguardamos o que for necessário para conseguir experimentar, escolher e comprar as mais variadas coisas.

As lojas ficam apinhadas de gente. Nem mesmo as de brinquedo escapam. De dentro delas saem legiões de mulheres com pacotes dos mais diversos tamanhos e cores. A pergunta é: se mulheres saem de lá, isso já não deveria ser um indicativo de que os homens não gostam de pelúcias? E o que dizer das sessões de lingerie? Todas procuramos pelos itens fundamentais ‘beleza, conforto, preço e sensualidade’ condensados em uma mesma peça.

Isso sem falar que para sair dos centros comerciais temos de enfrentar uma nova fila. Sim, porque em datas comemorativas acompanhadas de uma maldição é sempre melhor encarar mais uma fila a deixar o carro na rua e ter de esperar para que a pessoa que trancou o seu carro volte das compras. Fora de cogitação.

O outro ponto fundamental é a janta. A refeição preparada pela mulher é um forte indicativo de que coisas ruins não irão acontecer. Isso, claro, desde que a candidata a cozinheira saiba cozinhar, tenha conhecimento do que é um magret e, claro, que encontre todos os ingredientes. E, importante, não vale trocar pimenta-do-reino branca pela comum. Aliás, nenhum ingrediente pode ser trocado. E o vinho, ah, esse precisa ser seco. Particularmente acredito que quem inventou a história de fazer jantas em casa foi um namorado sovina que queria economizar o dinheiro do restaurante e, por conseguinte, do motel. Todavia isso não vem ao caso.

A realidade é que nos arriscamos ao fazer os mais variados pratos a fim de agradar nossos pares. Ao cortar uma cebola, por exemplo, uma unha pode lascar. Nada que um retoquezinho com esmalte não dê jeito. O cabelo, bem, esse já não estará mais tão perfumado, porém, ao finalizar o prato podemos recorrer às maravilhas cosméticas. É fato que ao fim do dia, as pernas estarão inchadas, afinal, ficou-se muito tempo em pé. Item que pode ser resolvido ao se colocar as pernas para cima por alguns minutos antes da chegada do namorado.

Quando isso acontece vemos que ele estava ansioso por nos encontrar. Prova disso é que ele chega com a roupa que saiu de manhã, trazendo sem embrulhar o DVD do Revelação (aquele que compramos juntos há umas três semanas) ... bem, a praga se abateu. Alguma coisa saiu errada. Revelação é demais! Aí o negócio é beber o vinho todo e capotar mesmo, afinal estamos amaldiçoadas por um ano inteiro.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, junho 03, 2009

Eu não disse?

Sabemos que a regra número um para viver e, claro, sobreviver em Roma nos dias atuais é ouvir as mulheres. Aos que não concordam, digo apenas para olharem o que não escutar a esposa e a cartomante fez com César. De nada adiantou ter sido tão senhor de si. Agora está lá, durinho, prestes a ser queimado.

Tudo bem, ele virou um herói ainda maior e, acredito, será lembrado por muitas e muitas gerações. Mas o fato é que está morto. E de que nos adianta um herói morto? Achou besteira o sonho da esposa? Coisas de mulheres? Sim, sei. E a cigana? Uma doida? Está certo. Mas ambas estão vivas e César, morto pelas mãos de ninguém menos que Brutus. Um cidadão com cara de bobo e total e completamente manipulável, tal como a maioria de nós. E, ressalte-se, que também não escutou a mulher.

Como vocês sabem, nunca simpatizei muito com Júlio César, porém, a burrice de partidários da oposição é decepcionante. Não contentes em transformar César em mártir (afinal, os assassinados têm esse destino), deixaram que Marco Antônio - que escutou a esposa-, o imortalizasse e galgasse postos mais altos dentro do Senado romano. Daqui a pouco veremos o quê? Antônio desposando uma das viúvas de César? Absurdo!

Aos que esperavam uma briga de Titãs após a morte de César, resta a decepção. O que vimos foi um enfraquecido e desprestigiado (para não dizer covarde) Cícero, retirar-se sem conseguir alcançar seu objetivo e, pior, sem fazer defesa de seus discípulos. O homem da oratória calou-se.
Ao pensar em Brutus e Cassius até entendo. Fico me questionando de onde foi que alguém tirou a idéia de que eles conseguiriam agir e pensar ao mesmo tempo. É algo impossível. Muita massa reunida, pouco cérebro, entendem? Sim, estou sendo movido pela cólera. É péssimo ter de admitir que Antônio foi brilhante e, confesso, de que minha mulher tinha razão sobre alguns pontos. O que me irrita ainda mais.

O que falar de maneira eloqüente não faz hoje em dia! E não faço alusão a apenas juntar as letras emitindo sons que formem palavras muito bem pronunciadas. Qual! Refiro-me a expor idéias. Na manhã de ontem vimos pessoas serem levadas a odiar e, em questão de horas, voltar a amar o que há pouco odiavam. Peças de um perigoso jogo, no qual ganha quem melhor souber movimentar suas pedras.

Se pensam que neste o ganhador foi apenas Marco Antônio, discordo. Seu discurso de fato foi brilhante. Ele deu uma rasteira nos dois pupilos de Cícero. E com que ironia: ‘Brutus é um homem honrado’! ... Vergonhoso.

Mas a verdadeira vitoriosa foi sua esposa. Certamente ela lhe dirá quando chegar a casa: “Não disse que junto ao corpo teria melhor efeito? Não disse?”.

De fato as palavras têm poder ... de fazer nascer em nós a ira.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, maio 27, 2009

Moda, a resposta aos problemas masculinos

Caros leitores, com a aproximação do Dia dos Namorados, preciso revelar a vocês que pela primeira vez estou, de fato, amando. Sei disso porque não consigo parar de pensar em minha namorada. Amo-a de um jeito tal que sinto a necessidade de estar com ela constantemente. Interesso-me por suas escolhas, suas amizades, estou sempre atento ao que ela faz, para onde olha, com quem fala, enfim, um amor verdadeiro e desprendido.

Esses sentimentos aliados à aproximação do dia 12, levaram-me a uma busca desenfreada por algo original e capaz de demonstrar minha paixão. E foi isso que me motivou a escrever a coluna desta semana. Sei que muitos de vocês devem estar na mesma situação na qual me encontro. Pois bem, achei a solução e vou compartilhá-la.

Nada de diárias em motéis, flores, chocolates, jóias, CDs, jantares, vinhos, roupas e todas aquelas outras coisas que sempre estão presentes nesse dia. Nenhuma combinação do tipo: um cacto e o livro “Amar Pode dar Certo”. Muito menos ofertas nas quais você compra a lingerie e ganha uma vela aromatizada. Descobri a resposta para a questão que há dias me atormentava: é possível encontrar originalidade para comprar? Sim. O mais curioso é que essa solução veio de uma área que nunca fez minha cabeça: a Moda.

Sempre fui muito radical em relação a esse setor. Jamais imaginei que aqueles senhores afetados e aquelas moças anoréxicas seriam capazes de indicar o caminho das pedras para um presente original. Confesso que nunca vi funcionalidade nos desfiles com mulheres magérrimas vestindo roupas espalhafatosas que muitas vezes mal conseguiam carregar. Para mim não havia diferença entre um desfile de Yves Saint Laurent e um concurso de fantasias daqueles que temos por aqui na época de carnaval. Porém, sou obrigado a reconhecer que meus (pré-) conceitos estão caindo por terra.

Em tempos nos quais uma mulher desconhecida, de idade avançada e sem atrativos físicos faz história na Música, outra, britânica, passará a ser referência no mundo fashion. Após descobrir o que essa mulher fez, tomei uma decisão: vou incentivar minha namorada a continuar seguindo as tendências da moda.

E, para provar isso, vou presenteá-la com um acessório que promete ser o hit da temporada. Não serei mais daqueles que reclamam dos gastos, do comprimento das roupas e dos olhares alheios que acompanham tais minúsculas e provocantes peças. Resolvi ser um cara mais antenado, moderno, de vanguarda até. Fui vencido. Cá entre nós, já imagino minha namorada usando o acessório. Ele tem um ar vintage, meio século XV: um cinto de castidade repaginado. Que mulher não gosta de cinto? E esse é melhor que os comuns, pois traz toda a simbologia da fidelidade... delas.

Querem prova melhor de amor? Sou daqueles que acreditam que as vontades e os desejos de nosso par devam vir em primeiro lugar. Observei o fato de minha namorada estar sempre ligada às novas tendências. Vi que recentemente ela comprou um espartilho. Vai combinar. Alguém pode dizer que não reparo nela?

Aos que porventura estejam torcendo seus narizes, digo: tenho absoluta certeza de que vocês também serão fiéis seguidores dessa moda que, espero, veio para ficar. Imagino as anjinhas da Victoria`s Secret com a peça nas mais diversas cores e modelos e as mulheres comprando-as, movidas pela ânsia de surpreender maridos, namorados e amantes. É o triunfo do amor, da pureza de sentimentos, da confiança. Algo realmente tocante.

Ah se essa moda tivesse sido re-adotada na época de Dom Casmurro! Quanta dúvida teria sido dissipada... É bem certo que a Literatura perderia, mas, o que é um livro frente a uma população de mulheres leais? Aliás, por que é que essa peça deixou de ser usada? Bem, nunca é tarde.

Divagações à parte, dêem-me licença. Tenho de correr atrás de um ferreiro capaz de confeccionar meu presente antes do dia 12. Uma dica aos que pretendem seguir meu exemplo: corram também. As sex shops já não têm mais os cobiçados acessórios. E, se não houver ferreiro para os lados de sua morada, apelem para a internet. Conheço um site que de repente pode auxiliar: http://www.vendemostudoparaciumentospatológicosemachistasobsessivos.com

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados