quarta-feira, junho 10, 2009

Um passo em falso e...

É verdade, a maldição do Dia dos Namorados existe e afeta de forma arrasadora as mulheres. E falo isso porque sou uma vítima dessa praga. Por isso, alerto: fiquem atentas aos detalhes.

Àqueles que não acreditam, sugiro ir fazer compras no dia 12 de junho. Iniciem os trabalhos após o almoço. Irão constatar que todo mundo resolve fazer o mesmo. Parece que na última hora as pessoas começam a acreditar que se não fizerem nada, o grande infortúnio irá se abater sobre suas vidas. Algo pior que os sete anos de azar que ocorrem após a quebra de um espelho.

O medo da tal desgraça no universo feminino é tão grande que enfrentamos uma verdadeira Via Sacra que começa pelo salão de beleza, afinal, precisamos estar impecáveis. É aquilo, em dias normais a impressão que se tem é que nossos pares sequer notarão se as unhas estão mal feitas ou se os pelinhos das pernas se apresentam crescidos. Porém, nesse dia é fundamental que não haja vestígios de raízes escuras, cutículas ou pêlos em lugares indesejados. E lá se vão algumas horas em um local abarrotado de mulheres. Trocamos idéias sobre os presentes que vamos oferecer, porém, que ainda não compramos.

Aproveitamos para nos inteirar das notícias e lemos revistas de fofocas. Aquelas entre nós que não gostam de saber quem casou com quem e porque deram certo, optam pelos jornais. Pelo caderno especial do Dia dos Namorados. Lá são encontrados os melhores destinos para se ir a dois: Paris, Veneza, Londres... sim, como se fosse possível a uma cidadã comum fazer o passaporte, arrumar as malas, comprar as passagens e realizar todo o resto a ponto de sair do Brasil no dia 12 e chegar no mesmo dia a Europa. Abrindo um parêntese, fico me perguntando por que é que sempre fazem essas matérias sendo que praticamente ninguém vai poder comprar os pacotes e chegar aos destinos em tempo de comemorar a data. Não seria mais inteligente fazer isso com pelo menos uma semana de antecedência? Enfim...

Como dizia, por temor de a praga se abater em nossas vidas, perdemos todo esse tempo e mais horas e horas em filas para entrar em shoppings. Esperamos para sermos atendidas por comerciários cansados e estressados que muitas vezes nos informam que o produto desejado já acabou. Mas, movidas que somos pelo medo, não desistimos. Caminhamos e aguardamos o que for necessário para conseguir experimentar, escolher e comprar as mais variadas coisas.

As lojas ficam apinhadas de gente. Nem mesmo as de brinquedo escapam. De dentro delas saem legiões de mulheres com pacotes dos mais diversos tamanhos e cores. A pergunta é: se mulheres saem de lá, isso já não deveria ser um indicativo de que os homens não gostam de pelúcias? E o que dizer das sessões de lingerie? Todas procuramos pelos itens fundamentais ‘beleza, conforto, preço e sensualidade’ condensados em uma mesma peça.

Isso sem falar que para sair dos centros comerciais temos de enfrentar uma nova fila. Sim, porque em datas comemorativas acompanhadas de uma maldição é sempre melhor encarar mais uma fila a deixar o carro na rua e ter de esperar para que a pessoa que trancou o seu carro volte das compras. Fora de cogitação.

O outro ponto fundamental é a janta. A refeição preparada pela mulher é um forte indicativo de que coisas ruins não irão acontecer. Isso, claro, desde que a candidata a cozinheira saiba cozinhar, tenha conhecimento do que é um magret e, claro, que encontre todos os ingredientes. E, importante, não vale trocar pimenta-do-reino branca pela comum. Aliás, nenhum ingrediente pode ser trocado. E o vinho, ah, esse precisa ser seco. Particularmente acredito que quem inventou a história de fazer jantas em casa foi um namorado sovina que queria economizar o dinheiro do restaurante e, por conseguinte, do motel. Todavia isso não vem ao caso.

A realidade é que nos arriscamos ao fazer os mais variados pratos a fim de agradar nossos pares. Ao cortar uma cebola, por exemplo, uma unha pode lascar. Nada que um retoquezinho com esmalte não dê jeito. O cabelo, bem, esse já não estará mais tão perfumado, porém, ao finalizar o prato podemos recorrer às maravilhas cosméticas. É fato que ao fim do dia, as pernas estarão inchadas, afinal, ficou-se muito tempo em pé. Item que pode ser resolvido ao se colocar as pernas para cima por alguns minutos antes da chegada do namorado.

Quando isso acontece vemos que ele estava ansioso por nos encontrar. Prova disso é que ele chega com a roupa que saiu de manhã, trazendo sem embrulhar o DVD do Revelação (aquele que compramos juntos há umas três semanas) ... bem, a praga se abateu. Alguma coisa saiu errada. Revelação é demais! Aí o negócio é beber o vinho todo e capotar mesmo, afinal estamos amaldiçoadas por um ano inteiro.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, junho 03, 2009

Eu não disse?

Sabemos que a regra número um para viver e, claro, sobreviver em Roma nos dias atuais é ouvir as mulheres. Aos que não concordam, digo apenas para olharem o que não escutar a esposa e a cartomante fez com César. De nada adiantou ter sido tão senhor de si. Agora está lá, durinho, prestes a ser queimado.

Tudo bem, ele virou um herói ainda maior e, acredito, será lembrado por muitas e muitas gerações. Mas o fato é que está morto. E de que nos adianta um herói morto? Achou besteira o sonho da esposa? Coisas de mulheres? Sim, sei. E a cigana? Uma doida? Está certo. Mas ambas estão vivas e César, morto pelas mãos de ninguém menos que Brutus. Um cidadão com cara de bobo e total e completamente manipulável, tal como a maioria de nós. E, ressalte-se, que também não escutou a mulher.

Como vocês sabem, nunca simpatizei muito com Júlio César, porém, a burrice de partidários da oposição é decepcionante. Não contentes em transformar César em mártir (afinal, os assassinados têm esse destino), deixaram que Marco Antônio - que escutou a esposa-, o imortalizasse e galgasse postos mais altos dentro do Senado romano. Daqui a pouco veremos o quê? Antônio desposando uma das viúvas de César? Absurdo!

Aos que esperavam uma briga de Titãs após a morte de César, resta a decepção. O que vimos foi um enfraquecido e desprestigiado (para não dizer covarde) Cícero, retirar-se sem conseguir alcançar seu objetivo e, pior, sem fazer defesa de seus discípulos. O homem da oratória calou-se.
Ao pensar em Brutus e Cassius até entendo. Fico me questionando de onde foi que alguém tirou a idéia de que eles conseguiriam agir e pensar ao mesmo tempo. É algo impossível. Muita massa reunida, pouco cérebro, entendem? Sim, estou sendo movido pela cólera. É péssimo ter de admitir que Antônio foi brilhante e, confesso, de que minha mulher tinha razão sobre alguns pontos. O que me irrita ainda mais.

O que falar de maneira eloqüente não faz hoje em dia! E não faço alusão a apenas juntar as letras emitindo sons que formem palavras muito bem pronunciadas. Qual! Refiro-me a expor idéias. Na manhã de ontem vimos pessoas serem levadas a odiar e, em questão de horas, voltar a amar o que há pouco odiavam. Peças de um perigoso jogo, no qual ganha quem melhor souber movimentar suas pedras.

Se pensam que neste o ganhador foi apenas Marco Antônio, discordo. Seu discurso de fato foi brilhante. Ele deu uma rasteira nos dois pupilos de Cícero. E com que ironia: ‘Brutus é um homem honrado’! ... Vergonhoso.

Mas a verdadeira vitoriosa foi sua esposa. Certamente ela lhe dirá quando chegar a casa: “Não disse que junto ao corpo teria melhor efeito? Não disse?”.

De fato as palavras têm poder ... de fazer nascer em nós a ira.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados