quarta-feira, maio 06, 2009

Momentos Omn

Momento 1: acordar
Acordar, para quem tem insônia, é uma das piores coisas que pode acontecer. E, desculpem-me por dizer isso, é o que ocorre logo pela manhã. Pois bem, ontem quando me deitei pensei que dormiria o sono dos deuses. Afinal, esperança é a última que morre. Demorei-me um tempinho incomodado com o ‘tun-ti-tum’ que vinha acompanhado de risadas do apartamento ao lado do meu. Amaldiçoei o fato de: 1- ter vizinhos; 2- ter vizinhos barulhentos; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Como ninguém é de ferro, lá pelas tantas adormeci. Sei disso porque mal fechei os olhos e de repente escutei o som da vinheta do Plantão Nacional: “tan - tan tan - tan tan- tantan tantan”. Não há sono que resista a isso. Acordei de sobressalto pensando que uma tragédia estava sendo anunciada. Meio zonzo notei que o quarto parecia rodopiar e, para minha surpresa, quando a TV passou por mim vi que ela estava desligada.

Maldito celular!, pensei. Essa maravilha tecnológica que já vem com tudo embutido: telefone, agenda, computador, televisão e, claro, despertador. Tentei dormir mais uns minutinhos e… “tan - tan tan - tan tan- tantan tantan”. Era a porcaria da função soneca. Quem foi que inventou essa droga que insiste em nos lembrar que mais cedo (5 minutos) ou mais tarde (15 minutos) teremos de levantar?

Depois de mais alguns toques de despertar e resistindo ao impulso de jogar o aparelho contra a parede – o que por um lado seria ótimo, pois o barulho poderia acordar os vizinhos da noitada. Porém, por outro, seria péssimo, afinal meu aparelho é de última geração-, levantei-me.

Momento 2: o trânsito
Com o ‘bom’ humor que me é peculiar nessas situações tomei banho e escovei os dentes. Obviamente não tomei café, afinal estava atrasado. Entrei no carro correndo e notei que a gasolina estava por um fio, mas que ‘daria pra chegar’. Segui rezando silenciosamente para que desse mesmo, afinal, não existe nenhum posto no caminho para o trabalho. E mudar o trajeto seria arriscado, pois desde o dia anterior o tanque estava quase vazio. Isso sem falar em quanto uma mudança de rota me atrasaria.

Saí da garagem, liguei o rádio e pensei: ‘meu dia será feliz e tranquilo’. Doce ilusão. Logo ao pegar a primeira via rápida me perguntei qual a razão de dizerem que ela seria rápida. Após refutar o primeiro pensamento “será um cortejo fúnebre?”, voltei à dura realidade e notei que simplesmente TODAS as pessoas pareciam não estar com a menor pressa de chegar a algum lugar. Imbuído de ira fui para a pista da esquerda e colei no carro da frente, um palio vermelho cujo senhor que estava dirigindo lia seu jornal tranquilamente. Pergunto: é melhor viver ou ler o caderno de esportes? Mais, como alguém consegue ler e dirigir ao mesmo tempo?

Antes de buzinar e o mandar para a casa da mãe Joana, lembrei de ser educado e o ultrapassei. Pensei que tudo se resolveria. Qual! Logo à frente fiquei preso atrás de um corsa cinza cuja motorista, uma moça loira e de óculos enormes, falava ao celular ao mesmo tempo em que passava batom. Juro para vocês que pensei estar em uma gravação do “Isso é Incrível”.

Bufando por estar preso atrás de uma roda presa que acabou por ficar emparelhada ao lado de outros dois carros conduzidos de igual forma, prometi a mim mesmo que faria placas com xingamentos para mostrar aos demais motoristas em momentos como aquele. Peguei um retorno e quase bato em um carro que foi acionado pela seta do meu carro. Sim, porque algumas pessoas pisam fundo no acelerador ao notar que outros querem trafegar na mesma via na qual estão. Amaldiçoei o fato de: 1- liberarem carteiras para pessoas que trafegam na pista da esquerda para ler ou se maquiar; 2- existirem faixas de deslocamento; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Momento 3: o elevador
Como sou é filho de Deus e, ele é brasileiro, de um jeitinho misterioso cheguei ao estacionamento do trabalho faltando três minutos para o horário de eu começar a trabalhar. Estacionei o carro na única vaga que havia e que, claro, fica longe da entrada do prédio. Mas ok, dos males o menor. O médico recomendou-me caminhadas. Caminhei – na verdade corri- no sol escaldante até chegar ao prédio no qual trabalho. Percebi que o elevador acabara de subir. Cogitei ir pela escada. Mas em tempo percebi que isso seria besteira. Se andar 200 metros já me deixara esbaforido e suado, imagine subir 24 andares. Vi que estava atrasado, mas tudo bem. O que é um peido para quem está cagado, não é mesmo? Além do mais, era o primeiro e único da fila, esperava ser o único no elevador.

Isso até que aquela senhora de mais de meia idade chegar acompanhada de umas sete pessoas. A fila foi se avolumando e notei que a senhora estava parada com uma empáfia que dizia: ‘vou entrar primeiro porque sou mulher’. Discretamente dei um passinho para frente e ela fez o mesmo. Mais um, ela idem. O elevador chegou e... bingo! Ela se mete na minha frente. Bufando de raiva me segurei para não dizer: ‘que bom que a senhora entrou antes, acho importante as pessoas exercerem os direitos garantidos pelo Estatuto do Idoso’. Para piorar a dita cuja era daquelas que fura a fila e empaca bem na porta do elevador. Ela desceria no 19° andar, mas queria sentar na janelinha.

Irritado e atrasado notei que o ascensorista só fazia marcar mais e mais números. Se tivesse uma arma, juro, colocaria na cabeça dele e sequestraria o elevador. Como não tinha, tentei exercer minha paciência. Porém, não deu. Uma voz esganiçada ressoava: “Ai amiga, você tem que ver se a gaiola do Bolota e da Bolinha está na varanda… mas não pode deixar eles sozinhos não… fale para o porteiro subir aí se chover”. Era ela, a de mais de meia idade. Além de mal educada era uma folgada. Sem vontade de ter acesso a tanta intimidade em um elevador lotado, tentei abstrair. Impossível.

A inconveniente não parava de tagarelar e, para piorar, olhava com desdém para todos que esbarravam nela (como se fosse possível não fazer isso!). Amaldiçoei o fato de: 1- aquela mulher existir; 2- descer depois dela e não ter a chance de empurrá-la ao sair em meu andar; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Momento 4: no trabalho
Quando a mulher desceu decidi que não me abalaria e que a paz volta a reinar. Com esse sentimento entrei em meu ambiente de trabalho. Abri a boca para dizer bom dia e escutei: “seu horário de entrada é as nove e não vinte minutos depois”… Prestes a ter um surto psicótico, mentalmente entoei o tal mantra budista. Fui para minha mesa e vi a solicitação do editor: uma crônica bem humorada sobre vícios e costumes de nossa sociedade. Piada, só podia ser. Amaldiçoei o fato de: 1- ter um editor; 2- não ter espírito humorístico; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

***

Muitas são as coisas que nos deixam irritados. Desde uma torneira pingando no meio da noite a um “boa tarde” que não encontra resposta. Agora, uma coisa é certa, existem comportamentos e costumes que simplesmente nos tiram do sério. Sejam coisas pequenas ou grandes, detalhes ou costumes rotineiros, em alguns dias parece que nada, mas absolutamente nada nos passa despercebido. Nesses momentos, caro leitor, amaldiçôo o fato de não saber outro mantra budista além do chatíssimo ‘Ommmmnn’.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados