Continuar ou não, eis a questão
Em tempos de crise, amanheci com uma dúvida: continuar com a terapia ou passar a fazer ginástica? Optei pela segunda hipótese e lhes explico por qual razão.
Todos vocês devem ter acompanhando o recente caso da baleia bico-de-garrafa, na Inglaterra. Aos que porventura não saibam do que se trata, faço um breve resumo para situá-los. Há alguns dias o tal cetáceo saiu das águas do Atlântico Norte e entrou em Londres via Tâmisa. Lá virou motivo de curiosidade (e mesmo de chacota) e, após nadar por tudo, acabou encalhando em um dos pontos mais movimentados do trajeto. A insólita situação virou notícia e o mundo inteiro viu seu sofrimento. Por fim, a retiraram do rio, porém, infelizmente ela não sobreviveu a tamanha humilhação.
O que me apavora nessa história toda é que não há alguém que questione o que motivou a baleia a sair nessa missão suicida. Por isso fui atrás e vou mostrar a vocês, por 'a' mais 'b', que fiz a escolha correta ao me decidir pelo acompanhamento de um personal.
A baleia em questão era jovem, com cerca de sete toneladas e seis metros de comprimento. Filha mais velha de pais separados, considerava-se feia e gorda. Seu trabalho era uma fuga. Há alguns meses começara a fazer uso de medicação controlada para evitar crises (sofria de distúrbio bipolar e de depressão). Além disso, os médicos já a tinham alertado sobre sua saúde: era muito estressada e sofria as consequências disso. Extremamente ansiosa, descontava suas frustrações em cima da comida o que já lhe causara problemas no fígado e dores fortíssimas provocadas pela artrite. Como vocês devem deduzir, para sobreviver ela fazia terapia... há três anos e meio, e com a mesma terapeuta.
Tenho certeza que dias antes da viagem à Londres sua analista deve ter dito: 'arrisque, o que você tem a perder? Desapegue-se?'. Também acredito piamente que se a baleia soubesse o que a esperava diria: 'minha dignidade'. Mas, não foi o que ocorreu. Cheia de iniciativa e coragem, a baleia seguiu o conselho à risca. Pediu demissão, disse umas boas verdades ao chefe, desfez-se de uma série de coisas que estavam entulhadas em sua casa, acabou o namoro e se jogou no mundo a la ‘Thelma e Louise’. Ansiava por curtir uma nova vida em mares (e rios) por ela nunca antes navegados. Como já sabemos, morreu ou desistiu de viver. Triste, mas a verdade. Nessa história toda, sua terapeuta nada sofreu. Obviamente deve falar a todos que não tem culpa alguma e que seus relatórios já apontavam a baleia como uma tresloucada inconsequente.
Confesso a vocês que me sensibilizei com a tragédia. Não pude deixar de ser solidária. Identifiquei-me de pronto. Porém, antes de fazer a mesma bobagem, meus olhos se abriram. Ela literalmente nadou, nadou e morreu no rio. E, notem, gorda, pobre, sem roupas adequadas a Londres e literalmente encalhada. Admiro a sua coragem, mas, sem falso moralismo, decidi usar meu dinheiro e meu tempo para outras coisas que não as sessões de terapia (as quais também faço há anos). Decidi que é melhor ser louca, porém com barriga de tanquinho - mesmo que não a minha, mas sim do personal.
Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados
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