quarta-feira, maio 27, 2009

Moda, a resposta aos problemas masculinos

Caros leitores, com a aproximação do Dia dos Namorados, preciso revelar a vocês que pela primeira vez estou, de fato, amando. Sei disso porque não consigo parar de pensar em minha namorada. Amo-a de um jeito tal que sinto a necessidade de estar com ela constantemente. Interesso-me por suas escolhas, suas amizades, estou sempre atento ao que ela faz, para onde olha, com quem fala, enfim, um amor verdadeiro e desprendido.

Esses sentimentos aliados à aproximação do dia 12, levaram-me a uma busca desenfreada por algo original e capaz de demonstrar minha paixão. E foi isso que me motivou a escrever a coluna desta semana. Sei que muitos de vocês devem estar na mesma situação na qual me encontro. Pois bem, achei a solução e vou compartilhá-la.

Nada de diárias em motéis, flores, chocolates, jóias, CDs, jantares, vinhos, roupas e todas aquelas outras coisas que sempre estão presentes nesse dia. Nenhuma combinação do tipo: um cacto e o livro “Amar Pode dar Certo”. Muito menos ofertas nas quais você compra a lingerie e ganha uma vela aromatizada. Descobri a resposta para a questão que há dias me atormentava: é possível encontrar originalidade para comprar? Sim. O mais curioso é que essa solução veio de uma área que nunca fez minha cabeça: a Moda.

Sempre fui muito radical em relação a esse setor. Jamais imaginei que aqueles senhores afetados e aquelas moças anoréxicas seriam capazes de indicar o caminho das pedras para um presente original. Confesso que nunca vi funcionalidade nos desfiles com mulheres magérrimas vestindo roupas espalhafatosas que muitas vezes mal conseguiam carregar. Para mim não havia diferença entre um desfile de Yves Saint Laurent e um concurso de fantasias daqueles que temos por aqui na época de carnaval. Porém, sou obrigado a reconhecer que meus (pré-) conceitos estão caindo por terra.

Em tempos nos quais uma mulher desconhecida, de idade avançada e sem atrativos físicos faz história na Música, outra, britânica, passará a ser referência no mundo fashion. Após descobrir o que essa mulher fez, tomei uma decisão: vou incentivar minha namorada a continuar seguindo as tendências da moda.

E, para provar isso, vou presenteá-la com um acessório que promete ser o hit da temporada. Não serei mais daqueles que reclamam dos gastos, do comprimento das roupas e dos olhares alheios que acompanham tais minúsculas e provocantes peças. Resolvi ser um cara mais antenado, moderno, de vanguarda até. Fui vencido. Cá entre nós, já imagino minha namorada usando o acessório. Ele tem um ar vintage, meio século XV: um cinto de castidade repaginado. Que mulher não gosta de cinto? E esse é melhor que os comuns, pois traz toda a simbologia da fidelidade... delas.

Querem prova melhor de amor? Sou daqueles que acreditam que as vontades e os desejos de nosso par devam vir em primeiro lugar. Observei o fato de minha namorada estar sempre ligada às novas tendências. Vi que recentemente ela comprou um espartilho. Vai combinar. Alguém pode dizer que não reparo nela?

Aos que porventura estejam torcendo seus narizes, digo: tenho absoluta certeza de que vocês também serão fiéis seguidores dessa moda que, espero, veio para ficar. Imagino as anjinhas da Victoria`s Secret com a peça nas mais diversas cores e modelos e as mulheres comprando-as, movidas pela ânsia de surpreender maridos, namorados e amantes. É o triunfo do amor, da pureza de sentimentos, da confiança. Algo realmente tocante.

Ah se essa moda tivesse sido re-adotada na época de Dom Casmurro! Quanta dúvida teria sido dissipada... É bem certo que a Literatura perderia, mas, o que é um livro frente a uma população de mulheres leais? Aliás, por que é que essa peça deixou de ser usada? Bem, nunca é tarde.

Divagações à parte, dêem-me licença. Tenho de correr atrás de um ferreiro capaz de confeccionar meu presente antes do dia 12. Uma dica aos que pretendem seguir meu exemplo: corram também. As sex shops já não têm mais os cobiçados acessórios. E, se não houver ferreiro para os lados de sua morada, apelem para a internet. Conheço um site que de repente pode auxiliar: http://www.vendemostudoparaciumentospatológicosemachistasobsessivos.com

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, maio 20, 2009

A culpa é da Diva

Pretendia hoje falar sobre o aquecimento global, o buraco na camada de ozônio e o efeito estufa. Porém, antes de tudo devo dizer que fui aluno de Ciências, na sétima série de 20 anos atrás, da professora Diva (sem sobrenome para que ela não seja alvo de pedras e pedaços de madeira). Foi ela quem incutiu em mim certa, digamos, aversão a tudo que é muito natural e conscientemente saudável.

Mas também, pudera. Quando um de meus colegas CDFs questionou “profe, como vamos sair ao sol ou proteger nossa fauna e flora já que as temperaturas vêm subindo tanto e o buraco na camada de ozônio aumentando?”, ela, a Diva, respondeu: “os cientistas darão um jeito, afinal, estudam pra isso”.

A digníssima poderia ter dito coisas como ‘usar bloqueador solar sempre’, ‘encontrar fontes de energias renováveis’ ou mesmo ‘basta termos mais consciência nas ações de nosso dia-a-dia fazendo X ou Y’. Mas não. Ela pura e simplesmente nos isentou de qualquer responsabilidade. E, dessa forma, ajudou a criar cidadãos como eu. Homens e mulheres que acreditam que a vida das plantinhas e dos bichinhos não tem nada, absolutamente nada, a ver com as nossas.

Vocês devem concordar comigo que é ótimo ouvir que um bando de especialistas passaria seus dias e noites procurando mil e uma maneiras de salvar a todos. Uma promessa de diversão sem compromisso... O que a Diva não disse é que esses cientistas poderiam ser incompetentes. Aham. Exatamente isso, incompetentes.

Enquanto eu comprava coisas e mais coisas resultantes do desenvolvimento que teve início com a maravilhosa Revolução Industrial, esses senhores faziam exatamente o quê? Quando eu comprava simples desodorantes sprays e latinhas de tinta para grafitar e desenvolver minha criatividade, onde estavam esses seres que não com um olho grudado em um microscópio ou em gráficos? No mínimo ganharam muito bem para ficar assistindo novelas, paquerando os colegas, lendo revistas de fofoca e escutando música. Sim, porque alguma coisa melhorou? Não. E, sejamos sinceros, só piora.

Por culpa deles e da mentirosa da Diva, temos de ver todos os dias notícias sobre bichos e plantas. Nos lugares nos quais fazia frio, atualmente só se ouve falar de calor e de seca. Já naqueles em que a seca era lei, hoje há enchentes e temperaturas baixíssimas. E quem se dá mal nisso tudo? As plantinhas, os bichinhos e, principalmente, nós. E quando digo nós, refiro-me aos alunos da Diva, os mais lesados! E sou um deles!

Sim. Tenho de enfrentar frio, calor, e, pior, besuntar-me para sair às ruas. Descobri que nem mesmo dentro de ambientes fechados estou protegido, pois as luzes artificiais fazem mal; as comidas enlatadas, idem; e assim por diante. Aí, somos obrigados a assistir palestras, comerciais e todo aquele blá blá blá sobre como as empresas que produzem as lâmpadas, as comidas e tudo o mais, poluem o ambiente. E esses chatos com consciência ambiental querem nos obrigar a agir de modo a proteger e conservar o meio ambiente e, assim, evitar que o buraco na camada de ozônio aumente ainda mais. Ãh?

Não há um que tenha me perguntado se estudei para isso. Já digo: não estudei e nem vou. É injusto que eu tenha de trabalhar e ter consciência no lugar daqueles recebem para fazer tais coisas. Se quiserem responsabilizar alguém, falem com a maldita Diva. Ela nos fez acreditar que enquanto aproveitávamos a vida e as maravilhas geradas pelo progresso, um bando de bons samaritanos passaria parte de suas vidas estudando e, depois, perderia a outra parte dessas mesmas vidas procurando formas de nos deixar confortáveis pelo mundo. Mentira!

Confesso a vocês que seguidamente lembro dela. Que raiva sinto ao perceber que além de sofrer com essas maluquices climáticas, fui enganado. Hoje sei que ela nos ludibriou por birra. Tipo: ‘se eu tenho que lavar a roupa no tanque porque meu marido é contra lavadora, então...’. O povo é mesmo egoísta e vingativo. Vocês acreditam que ela, com três vezes mais a nossa idade, não sabia disso? Claro que sabia. Mas, tinha de se vingar em alguém: nós, eu.

Cada vez que ouço falar em queimadas, calores insuportáveis que chegam a matar, geleiras vindas abaixo, falo mal e amaldiçôo a Diva até a quinta geração. Afinal, a culpa de tudo isso é dela. E se você, Diva, estiver lendo essa coluna, aí vai um recadinho: não passe na minha frente senão lincho você, juro.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, maio 13, 2009

Continuar ou não, eis a questão

Em tempos de crise, amanheci com uma dúvida: continuar com a terapia ou passar a fazer ginástica? Optei pela segunda hipótese e lhes explico por qual razão.

Todos vocês devem ter acompanhando o recente caso da baleia bico-de-garrafa, na Inglaterra. Aos que porventura não saibam do que se trata, faço um breve resumo para situá-los. Há alguns dias o tal cetáceo saiu das águas do Atlântico Norte e entrou em Londres via Tâmisa. Lá virou motivo de curiosidade (e mesmo de chacota) e, após nadar por tudo, acabou encalhando em um dos pontos mais movimentados do trajeto. A insólita situação virou notícia e o mundo inteiro viu seu sofrimento. Por fim, a retiraram do rio, porém, infelizmente ela não sobreviveu a tamanha humilhação.

O que me apavora nessa história toda é que não há alguém que questione o que motivou a baleia a sair nessa missão suicida. Por isso fui atrás e vou mostrar a vocês, por 'a' mais 'b', que fiz a escolha correta ao me decidir pelo acompanhamento de um personal.

A baleia em questão era jovem, com cerca de sete toneladas e seis metros de comprimento. Filha mais velha de pais separados, considerava-se feia e gorda. Seu trabalho era uma fuga. Há alguns meses começara a fazer uso de medicação controlada para evitar crises (sofria de distúrbio bipolar e de depressão). Além disso, os médicos já a tinham alertado sobre sua saúde: era muito estressada e sofria as consequências disso. Extremamente ansiosa, descontava suas frustrações em cima da comida o que já lhe causara problemas no fígado e dores fortíssimas provocadas pela artrite. Como vocês devem deduzir, para sobreviver ela fazia terapia... há três anos e meio, e com a mesma terapeuta.

Tenho certeza que dias antes da viagem à Londres sua analista deve ter dito: 'arrisque, o que você tem a perder? Desapegue-se?'. Também acredito piamente que se a baleia soubesse o que a esperava diria: 'minha dignidade'. Mas, não foi o que ocorreu. Cheia de iniciativa e coragem, a baleia seguiu o conselho à risca. Pediu demissão, disse umas boas verdades ao chefe, desfez-se de uma série de coisas que estavam entulhadas em sua casa, acabou o namoro e se jogou no mundo a la ‘Thelma e Louise’. Ansiava por curtir uma nova vida em mares (e rios) por ela nunca antes navegados. Como já sabemos, morreu ou desistiu de viver. Triste, mas a verdade. Nessa história toda, sua terapeuta nada sofreu. Obviamente deve falar a todos que não tem culpa alguma e que seus relatórios já apontavam a baleia como uma tresloucada inconsequente.

Confesso a vocês que me sensibilizei com a tragédia. Não pude deixar de ser solidária. Identifiquei-me de pronto. Porém, antes de fazer a mesma bobagem, meus olhos se abriram. Ela literalmente nadou, nadou e morreu no rio. E, notem, gorda, pobre, sem roupas adequadas a Londres e literalmente encalhada. Admiro a sua coragem, mas, sem falso moralismo, decidi usar meu dinheiro e meu tempo para outras coisas que não as sessões de terapia (as quais também faço há anos). Decidi que é melhor ser louca, porém com barriga de tanquinho - mesmo que não a minha, mas sim do personal.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados

quarta-feira, maio 06, 2009

Momentos Omn

Momento 1: acordar
Acordar, para quem tem insônia, é uma das piores coisas que pode acontecer. E, desculpem-me por dizer isso, é o que ocorre logo pela manhã. Pois bem, ontem quando me deitei pensei que dormiria o sono dos deuses. Afinal, esperança é a última que morre. Demorei-me um tempinho incomodado com o ‘tun-ti-tum’ que vinha acompanhado de risadas do apartamento ao lado do meu. Amaldiçoei o fato de: 1- ter vizinhos; 2- ter vizinhos barulhentos; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Como ninguém é de ferro, lá pelas tantas adormeci. Sei disso porque mal fechei os olhos e de repente escutei o som da vinheta do Plantão Nacional: “tan - tan tan - tan tan- tantan tantan”. Não há sono que resista a isso. Acordei de sobressalto pensando que uma tragédia estava sendo anunciada. Meio zonzo notei que o quarto parecia rodopiar e, para minha surpresa, quando a TV passou por mim vi que ela estava desligada.

Maldito celular!, pensei. Essa maravilha tecnológica que já vem com tudo embutido: telefone, agenda, computador, televisão e, claro, despertador. Tentei dormir mais uns minutinhos e… “tan - tan tan - tan tan- tantan tantan”. Era a porcaria da função soneca. Quem foi que inventou essa droga que insiste em nos lembrar que mais cedo (5 minutos) ou mais tarde (15 minutos) teremos de levantar?

Depois de mais alguns toques de despertar e resistindo ao impulso de jogar o aparelho contra a parede – o que por um lado seria ótimo, pois o barulho poderia acordar os vizinhos da noitada. Porém, por outro, seria péssimo, afinal meu aparelho é de última geração-, levantei-me.

Momento 2: o trânsito
Com o ‘bom’ humor que me é peculiar nessas situações tomei banho e escovei os dentes. Obviamente não tomei café, afinal estava atrasado. Entrei no carro correndo e notei que a gasolina estava por um fio, mas que ‘daria pra chegar’. Segui rezando silenciosamente para que desse mesmo, afinal, não existe nenhum posto no caminho para o trabalho. E mudar o trajeto seria arriscado, pois desde o dia anterior o tanque estava quase vazio. Isso sem falar em quanto uma mudança de rota me atrasaria.

Saí da garagem, liguei o rádio e pensei: ‘meu dia será feliz e tranquilo’. Doce ilusão. Logo ao pegar a primeira via rápida me perguntei qual a razão de dizerem que ela seria rápida. Após refutar o primeiro pensamento “será um cortejo fúnebre?”, voltei à dura realidade e notei que simplesmente TODAS as pessoas pareciam não estar com a menor pressa de chegar a algum lugar. Imbuído de ira fui para a pista da esquerda e colei no carro da frente, um palio vermelho cujo senhor que estava dirigindo lia seu jornal tranquilamente. Pergunto: é melhor viver ou ler o caderno de esportes? Mais, como alguém consegue ler e dirigir ao mesmo tempo?

Antes de buzinar e o mandar para a casa da mãe Joana, lembrei de ser educado e o ultrapassei. Pensei que tudo se resolveria. Qual! Logo à frente fiquei preso atrás de um corsa cinza cuja motorista, uma moça loira e de óculos enormes, falava ao celular ao mesmo tempo em que passava batom. Juro para vocês que pensei estar em uma gravação do “Isso é Incrível”.

Bufando por estar preso atrás de uma roda presa que acabou por ficar emparelhada ao lado de outros dois carros conduzidos de igual forma, prometi a mim mesmo que faria placas com xingamentos para mostrar aos demais motoristas em momentos como aquele. Peguei um retorno e quase bato em um carro que foi acionado pela seta do meu carro. Sim, porque algumas pessoas pisam fundo no acelerador ao notar que outros querem trafegar na mesma via na qual estão. Amaldiçoei o fato de: 1- liberarem carteiras para pessoas que trafegam na pista da esquerda para ler ou se maquiar; 2- existirem faixas de deslocamento; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Momento 3: o elevador
Como sou é filho de Deus e, ele é brasileiro, de um jeitinho misterioso cheguei ao estacionamento do trabalho faltando três minutos para o horário de eu começar a trabalhar. Estacionei o carro na única vaga que havia e que, claro, fica longe da entrada do prédio. Mas ok, dos males o menor. O médico recomendou-me caminhadas. Caminhei – na verdade corri- no sol escaldante até chegar ao prédio no qual trabalho. Percebi que o elevador acabara de subir. Cogitei ir pela escada. Mas em tempo percebi que isso seria besteira. Se andar 200 metros já me deixara esbaforido e suado, imagine subir 24 andares. Vi que estava atrasado, mas tudo bem. O que é um peido para quem está cagado, não é mesmo? Além do mais, era o primeiro e único da fila, esperava ser o único no elevador.

Isso até que aquela senhora de mais de meia idade chegar acompanhada de umas sete pessoas. A fila foi se avolumando e notei que a senhora estava parada com uma empáfia que dizia: ‘vou entrar primeiro porque sou mulher’. Discretamente dei um passinho para frente e ela fez o mesmo. Mais um, ela idem. O elevador chegou e... bingo! Ela se mete na minha frente. Bufando de raiva me segurei para não dizer: ‘que bom que a senhora entrou antes, acho importante as pessoas exercerem os direitos garantidos pelo Estatuto do Idoso’. Para piorar a dita cuja era daquelas que fura a fila e empaca bem na porta do elevador. Ela desceria no 19° andar, mas queria sentar na janelinha.

Irritado e atrasado notei que o ascensorista só fazia marcar mais e mais números. Se tivesse uma arma, juro, colocaria na cabeça dele e sequestraria o elevador. Como não tinha, tentei exercer minha paciência. Porém, não deu. Uma voz esganiçada ressoava: “Ai amiga, você tem que ver se a gaiola do Bolota e da Bolinha está na varanda… mas não pode deixar eles sozinhos não… fale para o porteiro subir aí se chover”. Era ela, a de mais de meia idade. Além de mal educada era uma folgada. Sem vontade de ter acesso a tanta intimidade em um elevador lotado, tentei abstrair. Impossível.

A inconveniente não parava de tagarelar e, para piorar, olhava com desdém para todos que esbarravam nela (como se fosse possível não fazer isso!). Amaldiçoei o fato de: 1- aquela mulher existir; 2- descer depois dela e não ter a chance de empurrá-la ao sair em meu andar; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

Momento 4: no trabalho
Quando a mulher desceu decidi que não me abalaria e que a paz volta a reinar. Com esse sentimento entrei em meu ambiente de trabalho. Abri a boca para dizer bom dia e escutei: “seu horário de entrada é as nove e não vinte minutos depois”… Prestes a ter um surto psicótico, mentalmente entoei o tal mantra budista. Fui para minha mesa e vi a solicitação do editor: uma crônica bem humorada sobre vícios e costumes de nossa sociedade. Piada, só podia ser. Amaldiçoei o fato de: 1- ter um editor; 2- não ter espírito humorístico; e 3- não ser espiritualizado a ponto de passar por cima disso. Lembrei-me dos budistas e imediatamente pensei ‘Ommmmnn’.

***

Muitas são as coisas que nos deixam irritados. Desde uma torneira pingando no meio da noite a um “boa tarde” que não encontra resposta. Agora, uma coisa é certa, existem comportamentos e costumes que simplesmente nos tiram do sério. Sejam coisas pequenas ou grandes, detalhes ou costumes rotineiros, em alguns dias parece que nada, mas absolutamente nada nos passa despercebido. Nesses momentos, caro leitor, amaldiçôo o fato de não saber outro mantra budista além do chatíssimo ‘Ommmmnn’.

Texto do 3º Desafio dos Escritores, promovido pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados